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Clube da Banda São Filipe
Cidade Natal de Pe. Carmelo Bezzina
Haz-Zebbug – Malta
Por ocasião da Festa do Padroeiro – Ano 2005
Pe. Carmelo Bezzina
Missionário de Zebbug no
Brasil
Entrevista: Pe.
Carmelo Bezzina foi entrevistado em Malta
no verão de 2004 e deu as seguintes informações.
A entrevista foi
feita pelo sr. Philip Balzan.
Entrevistador
Perfil
Pe. Carmelo nasceu no dia 29 de abril de
1942, no final da Segunda Guerra Mundial. Nasceu, ele
conta, num abrigo antiaéreo que havia na antiga casa de
sua família, situada na rua “Il-Madonna tal-Grazzie”,
número 92, na cidade de Haz-Zebbug. Estudou na escola
primária de sua cidade e no Seminário Menor da cidade de
Furjana. Ele freqüentou uma associação catequética que
leva o nome de Musew, onde permaneceu até ser um membro
efetivo. Depois, no ano de 1961, entrou no Seminário
Maior, onde estudou Filosofia durante quatro anos. Em
dezembro de 1965 partiu para o Brasil com mais um
companheiro, padre Paulo Brincat, da cidade de Birkirkara.
No Brasil estudou no Seminário de Curtiba, a capital do
Paraná. Estudou Teologia durante três anos.
Pe. Carmelo foi ordenado sacerdote no dia
1º de março de 1969 e iniciou a sua atividade missionária
na função de vice-pároco na Paróquia de Tamarana, na qual
havia um pároco maltês: Pe. Francisco Debattista, da
cidade de Tarxien (ele era irmão da farmacêutica, dona
Mary Nicallef, que morava na cidade de Zebbug). Em maio de
1970 faleceu o pároco Pe. Francisco Debattista e Pe.
Carmelo, que era vice-pároco, assumiu a paróquia como
pároco. Pe. Francisco foi enterrado no Brasil na pequena
capela que foi construída para ele no cemitério da
paróquia onde faleceu.
No ano de 1985, Pe. Carmelo foi nomeado
pároco da Comunidade de Bela Vista do Paraiso e, no ano de
1995, foi nomeado pároco da Paróquia Nossa Senhora
Auxiliadora na cidade de Londrina. No ano 2005 foi nomeado
Vigário Geral.
Padre Carmelo
O início do trabalho missionário
de Pe. Carmelo
A pergunta que sempre alguém me faz: “Por
que deixou a ilha de Malta e veio para o Brasil?”. Eu
respondo dizendo que quando eu era seminarista nos
ensinavam que aquele que se ordena sacerdote, não se
ordena para a Igreja de Malta somente, mas para a Igreja
toda. E por isso, a gente tem que olhar além dos limites
da Igreja de Malta. Nos anos sessenta, quando ainda
seminarista, em Malta havia um espírito muito forte de ser
missionário, porque estava em andamento o Concilio
Vaticano II e vários bispos quem estavam em Rosa para o
Concílio, ficavam sabendo que em Malta havia muitas
vocações e visitavam a ilha de Malta em busca de vocações
missionárias. No ano 1958 veio em Malta o bispo de
Londrina. Dom Geraldo Fernandes, um bispo recém-nomeado
para a Diocese de Londrina. Ele veio pedir ajuda para a
sua diocese. Sacerdotes missionários para a Diocese de
Londrina. Pouco tempo depois da visita de Dom Geraldo, os
primeiros dois seminaristas malteses partiram de Malta
para a Diocese de Londrina. Foram fazer no Brasil o curso
de Teologia e depois trabalhar na diocese como
missionários. Foi assim que começou o trabalho missionário
dos sacerdotes diocesanos da Malta na Diocese de Londrina.
Em seguida, alguns sacerdotes já ordenados padres,
escolheram o mesmo caminho, e anualmente alguns
seminaristas partiam de Malta para o Brasil.
Eu e Pe. Paulo Brincat, da cidade de
Birkirkara, partimos para o Brasil no ano de 1965, faz
quase 40 anos. Fizemos nossos estudos de Teologia na
capital do Paraná, Curitiba, onde já havia seminaristas de
Malta estudando. Eu e Pe. Paulo fomos ordenados sacerdotes
em Tamarana no dia 1º de março de 1969. Eu comecei a
ajudar Pe. Franscisco Debattista, da cidade de Tarxien,
enquanto Pe. Paulo Brincat foi para a paróquia vizinha de
Paiquerê. Quando o padre Debattista faleceu no ano de
1970, Pe. Paulo Brincat veio comigo em Tamarana e lá
trabalhamos juntos durante cinco anos. Depois da ida de
sacerdotes à Londrina, vieram também sacerdotes e
seminaristas para outras dioceses, tais como Apucarana e
Maringá, que se encontram no Estado do Paraná, onde foram
para dioceses do Estado de São Paulo.
Entrevistador
Tamarana, a primeira paróquia do Pe.
Carmelo Bezzina, tem uma área territorial maior que a ilha
de Malta, e no ano de 1970 tinha uma população de 30.000
pessoas. No dia 16 de agosto se realiza a Festa de São
Roque, o santo padroeiro de Tamarana. É uma região rural,
na qual as ruas não eram asfaltadas. Quando chovia, e isso
a maior parte do ano, se tornava muito difícil viajar
naquelas estradas. Tinha mais ou menos 20 capelas
esparramadas em toda a área da paróquia. O padre visitava
essas comunidades uma vez por mês para celebrar a Missa e
atendia as confissões. Não foi somente uma vez que marcava
uma visita, chovia, e tinha que desmarcar. Na época que Pe.
Carmelo era vigário, ele ainda usava o lampião a querosene
e foi nesses últimos anos que chegou a luz elétrica. Como
é possível perceber, o povo era pobre. Durante o tempo em
que era pároco, Pe. Carmelo, na maior parte do tempo,
ficava sozinho como sacerdote em Tamarana, embora tivesse
alguma ajuda de algum sacerdote durante algum período.
Além do trabalho pastoral e administrativo da paróquia, Pe.
Carmelo era também diretor da Escola Secundária, na qual
lecionava Inglês e também dirigia as comissões da paróquia
e outras da cidade (como, por exemplo, uma comissão para a
construção de um hospital para os pobres). Durante 17
anos, Pe. Carmelo continuou a construção da igreja, que
fora iniciada pelo Pe. Francisco, e começou a construção
da casa paroquial, salão de festas, salas de catequese,
casas das irmãs, creche para centenas de crianças e asilo
para velhos pobres.
Padre Carmelo
Em Tamarana, tudo estava para fazer: fazer
os bancos da igreja e outras coisas simples como armários,
cadeiras, tolhas do altar etc. A casa paroquial era de
madeira e era usada também como depósito para guardar
arroz, que recebíamos nas campanhas para, depois, vender e
comprar as coisas necessárias para a igreja; e por isso,
durante a noite, dava para ouvir o correr e as brigas dos
ratos que vinham por causa do arroz. Nessa época, eu fazia
um pouco de tudo: como padre, rezava missa, pregava, fazia
casamentos, batizados, organizava o catecismo e outros
trabalhos pastorais. Tinha também que ser comerciante,
vender o arroz que ganhava, procurar o engenheiro para
fazer plantas da casa paroquial e outras construções,
procurava pedreiros e combinava o preço do serviço,
comprar o material de construção e eu mesmo com
caminhoneta carregava o material de Londrina para Tamarana.
Como dava conta de tudo, só Deus sabe. Era
jovem, cheio de energia, saúde e entusiasmo para com tudo
o que fazia. Nos 17 anos que fiquei em Tamarana têm muitas
histórias que a gente pode contar. O povo me ajudava muito
e quando viam o padre a ser o primeiro a por as mãos, eles
seguiam com maior disposição o trabalho. Eles me queriam
muito bem e pensavam que eu nuca mudaria daquela paróquia.
Porém, o fato de algum dia mudar é algo muito bem
trabalhado. Quando fui transferido para outra paróquia, as
pessoas sentiram muito e eu também senti bastante.
Primeiras experiências
Um fato que, depois que aconteceu, faz a
gente rir. Aconteceu esse fato durante uma faz primeiras
festas que fizemos em Tamarana. Há certa hora percebi que
havia uma calorosa discussão entre algumas pessoas. Eu me
aproximei para ver o que estava acontecendo e tentei
acalmar os ânimos. Mas, o contrário aconteceu, uma briga
entre a multidão e eu lá no meio. Alguém me agarrou pelo
pescoço e fomos os dois no chão. Logo as pessoas
perceberam que era o padre e vieram socorrer. Sorte que
ninguém estava armado. Um dos dois que começaram a briga
cortou um pouco a mão com um pedaço de vidro de garrafa
que se quebrou a medida que as mesas foram caindo no chão.
Os dois não sabiam que eu era o padre. Foram presos pelos
policiais e quando ficaram sabendo, vieram pedir mil
desculpas. No dia seguinte, os boatos na cidade: o padre
se enroscou numa briga, o padre deu uma surra etc. Depois
do fato, passado o acontecimento, faz a gente rir, embora
podia ter se tornado uma tragédia.
Entrevistador
Pe. Carmelo é transferido de
paróquia
No ano de 1985, Pe. Carmelo foi transferido
de Tamarana para a paróquia de Bela Vista do Paraíso, onde
ficou como pároco durante nove anos. Bela Vista é uma
cidade de 15 mil habitantes, com uma área correspondente a
metade da ilha de Malta. Aqui o nível escolar e educativo
é um pouco mais elevado e não tem também pobreza como em
Tamarana. O padroeiro da paróquia é São João Batista e
celebra a sua festa no dia 24 de junho. Há na paróquia 10
capelas. Entre os trabalhos realizados pelo Pe. Carmelo
Bezzina nesta cidade e paróquia, foi a Casa do Albergado
para acolher os andarilhos e, às vezes, até famílias
inteiras que podiam permanecer até três dias, onde
recebiam comida, banho e pouso. Além disso, continuou o
grande trabalho pastoral: catequese para as crianças,
pastoral dos jovens e pastoral familiar.
Padre Carmelo
A Paróquia de Bela Vista do Paraíso era
diferente, pois a comunidade já tinha a estrutura básica
em construções para atender os trabalhos pastorais. Quando
cheguei, encontrei uma pequena resistência, motivada pela
atitude de alguns sacerdotes que deixaram o sacerdócio.
Tive, então, que reconquistar a confiança dos paroquianos
e das pessoas que estavam sofrendo por causa desses
acontecimentos. À medida que o tempo foi passando, foram
me conhecendo melhor e houve um bom entrosamento e
colaboração; encontrei muito colaboração e ajudas dos
coordenadores de pastoral da paróquia em todos os tipos de
atividades, tanto pastorais como sociais, e também para os
trabalhos administrativos da paróquia. A situação da
Paróquia de Bela Vista do Paraíso era diferente daquela de
Tamarana, pois Bela Vista foi um município que viveu um
tempo de fartura e crescimento no tempo da cultura do
café, que dava muita mão-de-obra e emprego para muita
gente. Depois da época do café, chegou a soja, essa
cultura é mecanizada e fez cair o procura de mão-de-obra.
Por isso, a queda de mão-de-obra fez diminuir o número de
pessoas na roça, que migraram em busca de serviço e
emprego em cidades grandes como Londrina.
O trabalho maior na pastoral foi de
organizar a catequese, os jovens e os casais. Além de
ajudar os leigos, tanto em Tamarana como também em Bela
Vista, eu tive a ajuda das irmãs (religiosas). Em Tamarana
tinha uma congregação religiosa de irmãs italianas, que
eram conhecidas como “Irmãs de Santa Ana”. Essa
congregação abriu no Brasil sua primeira casa em Tamarana,
na época que eu era pároco lá. Elas me ajudaram muito no
trabalho pastoral e social da comunidade. O Senhor as
recompensou porque tiveram várias vocações entre as jovens
de Tamarana e elas continuam o seu trabalho até hoje. Em
Bela Vista do Paraíso tem uma congregação de irmãs,
“Filhas do Coração de Maria”. São de origem belga e tem
também uma casa em Londrina, onde me encontro agora. Elas
têm casa também em Minas Gerais. Essas irmãs me auxiliaram
muito na Paróquia de Bela Vista quando estava lá e agora
elas me ajudam aqui em Londrina.
Entrevistador
Pe. Carmelo é transferido e
promovido a Vigário Geral
No ano de 1995 Pe. Carmelo foi nomeado
pároco de uma paróquia de Londrina, que é a sede da
arquidiocese, no estado do Paraná, no Brasil. Londrina é
uma cidade grande de 400.000 pessoas e que se localiza no
meio caminho, entre Tamarana e Bela Vista do Paraíso. Na
cidade tem 30 paróquias, enquanto que mais de 40 paróquias
fora da cidade e fazem parte da Arquidiocese de Londrina,
das quais Tamarana e Bela Vista são duas paróquias. Em
Londrina, Pe. Carmelo reencontrou-se com o seu patrício e
colega de curso, Pe. Paulo Brincat, que hoje é reitor do
Seminário Maior da Arquidiocese. Além de Pe. Carmelo e Pe.
Paulo, há mais nove sacerdotes malteses trabalhando na
Arquidiocese de Londrina: cinco padres diocesanos, dentre
eles, Pe. Filipe Said, maltês de Zebbug e quatro
religiosos agostinianos, que trabalham em duas paróquias
diferentes.
A paróquia de Pe. Carmelo é a Paróquia
Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos, cuja festa se
celebra no dia 24 de maio. Nessa paróquia o padre é
responsável pela construção de uma igreja grande e bonita,
de estilo bem moderno. Como vigário o Pe. Carmelo é também
diretor da Rádio Alvorada que funciona numa base
comercial, mas que depende também da ajuda que recebe das
paróquias. Essa emissora é da Arquidiocese de Londrina e
ela é um meio importante de evangelização, tendo programas
religiosos, educativos e notícias.
A Paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora dos
Cristãos é uma paróquia bem organizada e muito ativa. Tem
30 movimentos ou grupos pastorais como: Carismáticos,
Vicentinos (movimento de leigos que visitam famílias
carentes e que ajudam doando alimentos e outros
materiais), a Pastoral da Saúde (que visita os doentes,
leva ao médico e distribui a comunhão), grupo bíblico,
grupos de adolescentes, grupo de jovens, movimento dos
Adoradores da Eucaristia. Esses grupos e movimentos se
reúnem regularmente – a maior parte a cada semana e
trabalham muito cooperando e trabalhando com o sacerdote.
É tão verdade que o Pe. Carmelo, na sua opinião, são esses
leigos engajados que na verdade levam adiante a
administração da paróquia. Assim, por exemplo, enquanto o
Pe. Carmelo estava em Malta não havia nenhum sacerdote
para dar continuidade, além de padres que vinham somente
para celebrar missa e atender confissões. Entre as
comissões que ele tem na paróquia, Pe. Carmelo falou de
duas comissões: a de Construção e a de Liturgia. Essa
última de incumbe de preparar a liturgia de cada semana
com a intenção de torná-la mais viva e participativa.
Na paróquia tem também uma capela dedicada
a São Domingos Sávio. A capela foi construída pelos padres
salesianos que cuidavam da paróquia antes do Pe. Carmelo
chegar. A paróquia adotou uma “Igreja Irmã”; uma
comunidade muito pobre e que enfrenta problemas de
violência e de drogas e que se localiza na periferia da
cidade. Como parte dessa adoção de “Igreja Irmã”, a
paróquia está ajudando como dinheiro na construção de uma
capela naquele lugar. Além disso, alguns grupos da
paróquia estão indo lá naquela comunidade irmã para ajudar
com o seu serviço pastoral.
Em abril de 2004, Dom Albano Cavallin
nomeou Pe. Carmelo Bezzina como Vigário Geral da
Arquidiocese para ajudá-lo na administração do Crisma nas
paróquias da arquidiocese e ajudá-lo nas outras ocasiões
que precisar.
O dízimo e os 10%
Em Londrina existe o sistema de dízimo na
base voluntária. Aproximadamente 400 assumiram
voluntariamente o compromisso de devolver para a Igreja
10% do que eles recebem (a maior parte deles tem um
salário fixo mensal). Esses dizimitas praticam fielmente o
5º Mandamento da Igreja. Em muitos lugares, inclusive
Malta, este preceito não é sempre cumprido. Na paróquia
tem uma comissão que cuida do assunto: convidar mais
voluntários para se unir àquelas que estão contribuindo
como voluntários dos 10%. O dízimo que se arrecada se
reparte em três partes: 20% para obras sociais e para os
mais pobres, 40% para as construções e o restante (30%)
para as despesas administrativas, incluindo despesas para
cursos de formação, retiros, reuniões e outras despesas
com a pastoral.
Padre Carmelo
As religiões no Brasil
A religião católica no Brasil é mais
numerosa. Atualmente, atingimos os 60% da população. Mais
ou menos 50 anos, éramos 80%. Nos últimos 50 anos as
seitas aumentaram de uma maneira extraordinária. Com isto,
a Igreja Católica está muito preocupada e está fazendo de
tudo para não deixar que os fiéis sejam enganados. Têm
aqueles que estão fazendo da religião um comércio. Cria-se
uma igreja e começa a pregação, reúne um grupo de pessoas,
promete curas de muitas doenças e outros males e, como
isto, arrecada dinheiro. Tem uma seita religiosa cujo
fundador tem tido grande sucesso fora do Brasil. Ele se
autodenomina “bispo”. Fala de muitas curas, o povo
acredita, e tem tanto dinheiro que se pode considerar um
milionário. A sua igreja é denominada “Igreja Universal”.
Como já falei, diariamente aparecem novas igrejas e a
gente fica perguntando como eles encontram adeptos ou
seguidores. Isso sem dúvida é fruto de uma ignorância
religiosa muito grande. Alguns se defendem afirmando que
tudo está bem quando uma pessoa fala de Deus e faz uso da
Bíblia. A Igreja Católica está em um trabalho intenso no
ensino da catequese das crianças, catequese dos jovens e
adolescentes e está organizando grupos de jovens e
adolescentes e grupos de casais e grupos bíblicos. Fazem
muitas reuniões, grupos de orações no final de semana, nos
quais centenas de jovens participam. Os brasileiros, por
natureza, são muito religiosos. E o número daqueles que
dizem que são ateus, embora que tem aumentado ultimamente,
conforme as estatísticas, é ainda muito pequeno. Aqueles
que afirmam que não são católicos pertencem a alguma outra
religião ou seita.
No Brasil existem muitos costumes e
tradições religiosas, devoções, crenças, folclores e
festas que os imigrantes trouxeram consigo de outros
países. Primeiro de Portugal, os portugueses que
descobriram e começaram a ocupação do Brasil, e depois
chegaram mais no final do século dezenove. Nesse período
chegaram as imigrações da Itália, Alemanha, Polônia, Japão
e imigrantes de muitos outros países. Nessa época vieram
também algumas famílias de Malta, que trabalhavam e
moravam em São Paulo. Com eles, todos esses imigrantes
trouxeram costumes e devoções de seus paises de origem e
que ainda praticam até o dia de hoje. Por causa disso,
temos muitas festas típicas conforme os costumes desses
imigrantes, por exemplo, procissões com imagens e estátuas
e outras festas religiosas ou folclóricas.
A Liturgia no Brasil é muito viva e os
leigos participam ativamente. As celebrações são animadas
com danças, procissões, nas quais o povo participa com
cantos e gestos que criam um clima de festa e alegria. As
festas nas famílias são também muito valorizadas. O
Batismo, a Primeira Comunhão, o Crisma e o Casamento são
ocasiões para festas em família que se celebra com
vizinhos e amigos. Também o velório reúne muita gente. Os
vizinhos e os amigos se reúnem com a família do falecido
para velar o corpo na casa até a hora do enterro. Depois
ainda fazem novenas de oração pela alma do falecido; isso
fazem com a família enlutada. Nós temos também a Pastoral
da Esperança, um grupo de agentes dessa pastoral da
paróquia se faz presente na casa ou no velório para rezar
e consolar os familiares do falecido. No Brasil tem também
religiões que apresentam uma mistura de rito ou rituais
pagão que foram trazidos pelos escravos importados da
África. O candomblé é uma dessas misturas. Nessa religião,
se assim pode ainda ser chamada, tem uma mistura de Santos
Católicos e deuses pagãos da África. Os escravos eram
obrigados a serem batizados, mas eles continuavam a crer
nos deuses deles. A Igreja Católica respeita esses povos
quando percebe que eles realizam esses rituais com
seriedade e grande devoção. A situação dos povos indígenas
é parecida com aquela dos demais habitantes. Existem
tribos que ainda mantêm os costumes ancestrais, outras
passaram para a religião católica, e outras passaram para
o protestantismo ou ingressaram em alguma outra seita. As
vocações nas tribos indígenas são muito raras.
Entrevistador
Quarenta anos de mudanças
Nos 40 anos que esteve no Brasil, Pe.
Carmelo viu muitas mudanças na vida política, na vida do
povo e na vida e no trabalho dos missionários. Quando
começou como sacerdote na primeira paróquia de Tamarana
não havia nem telefone nem televisão. Pior que isso, não
tinha estradas boas. Eram estradas de terra. Quando não
chovia, a terra roxa penetrava por todos os lados e quando
chovia o barro grudava e tornava a estrada sem
possibilidade de transitar. Caso a chuva continuasse por
mais de quinze dias, faltava gasolina nos postos e até
mercadorias nos armazéns. Isso porque a cidade de Tamarana
se encontra a 50 quilômetros de Londrina, que era e
continua sendo o centro comercial no qual se encontra tudo
aquilo que você pode precisar. Também lá se encontra o
serviço médico e hospitalar de boa qualidade.
Padre Carmelo
Em situação normal levava uma hora de carro
para chegar, mas quando chovia, duas horas, quando não
atolava e só Deus que sabia quando sairia e chegaria –
isso acontecia com certa freqüência. Mas havia muita
solidariedade e espírito de ajuda mútua, de um ajudar o
outro no momento de precisão. Na paróquia e nas visitas às
capelas a realidade era a mesma, quando não a poeira
vermelha era o barro que atolava e sujava. Nesses lugares
o povo já deixava um par de sapatos ou sandálias atrás da
porta da casa para trocar ao chegar e não entrar na casa
como os sapatos todo embarreados ou molhados.
Muitas vezes me perguntavam o que mais me
faz falta ou deixava saudades quando deixei a ilha de
Malta. Sem dívida é a ausência da família e a distância
que nos separa. No começo não é fácil, mas à medida que o
tempo vai passando a gente vai se acostumando, embora a
lembrança da família e de Malta permanecem sempre como
algo que gera saudade e nos faz querer bem a eles mais do
que quando estávamos lá juntos. Naquele tempo era até
difícil saber aquilo que estava acontecendo na família e
na terra natal, por falta de meios de comunicação, mas
hoje (com a internet) posso ler as notícias de Malta antes
que eles acordem (fuso horário de 3 a 5 horas antes). Os
meios de comunicação se transformaram maravilhosamente, e
o mundo se tornou pequeno como uma única cidade.
A realidade socioeconômica
brasileira
Quando alguém dá uma olhada para a
sociedade brasileira encontra uma grande diferença entre o
modo como vivem os ricos, que são uma pequena parcela da
sociedade, e os outros que são a maior parte da população.
Os primeiros são muito ricos, ao ponto que a maioria deles
viajar com seu avião particular. A maioria é composta de
gente que, muitos, não têm nem sequer um teto onde morar;
eles vivem mendigando e procurando nas latas de lixo dos
ricos para poder ter o que comer. A Igreja se esforça ao
máximo para amenizar esses problemas, mas isso não basta
ainda para tanta gente necessitada. O governo tenta
lentamente criar algumas estruturas de assistência e
promoção social, mas encontra uma forte oposição do lado
dos ricos que não desejam tal mudança.
Entrevistador
A língua do Brasil é a língua portuguesa e
os malteses que foram para lá ainda seminaristas (a maior
parte deles) ou como sacerdotes aprenderam a falar
português lá mesmo, mais falando do que estudando.
Padre Carmelo
Não foi fácil, mas quando se tem uma grande
vontade e também se sente a necessidade de falar, de
tentar e de superar todos os obstáculos. De propósito,
fazia questão que não ficarmos em grupo de malteses para
não falar nossa língua. Procurávamos entrar nas rodas dos
brasileiros para aprender as palavras e também porque eles
mesmos procuravam nos ensinar como falar corretamente. Os
brasileiros são muito cordiais, têm um respeito grande
para com os sacerdotes e eles admiram muito o sacrifício
que nós malteses fazíamos, deixando a família e a pátria
para vir ajudar como missionários. É um povo muito
sentimental, eles recebem você com muita alegria, mas
precisa estar com muito cuidado porque se ofendem com
muita facilidade. Nós (malteses) estamos acostumados com o
sistema inglês: esperar sempre o relógio dar as horas para
começar, mas aqui passar 5 ou 10 minutos além do horário
marcado é uma coisa totalmente normal.
A escolaridade no Brasil é bem avançada nos
grandes centros, mas muito atrasado nos lugares distantes
dos centros urbanos. Têm muitas universidades ótimas nos
grandes centros urbanos; por outro lado, uma alta
porcentagem de analfabetismo nos ambientes pobres. Aqueles
que conseguem completar um curso universitário são uma
porcentagem baixa e sempre são filhos de famílias de
classe média e alta. As pessoas de cor ou de cor mulata
têm poucas chances de completar um curso universitário. A
medicina é bem avançada, mas os pobres têm pouca
oportunidade de receber atendimento. A informática está
presente em todos os setores da sociedade e todos os
setores da vida, bancos, hospitais, departamentos do
estado, paróquias. Mas a história se repete: os que se
encontram distantes dos centros, dos grandes e poderosos,
o bem-estar demora muito para estar ao alcance dos
pequenos e pobres.
Nos anos 70% da população do Brasil, vivia
trabalhando no campo ou ambiente rural e 30% na cidade.
Passados 30 anos, a situação se inverteu e agora 70% vivem
na cidade e 30% na roça e ambiente rural. Resultado dessa
mudança a terra caiu nas mãos dos ricos e se formou
grandes latifundiários nas mãos de poucos proprietários e
parte grande do trabalho é realizado por grandes máquinas
agrícolas. Outro fator que ajudou na realização dessa
mudança profunda foi também o tipo novo de cultura, foram
arrancados muitos milhares de pés de café e começaram a
plantar soja. Enquanto a cultura do café exigia muita
“mão-de-obra”, a cultura da soja é feita tudo via
máquinas. Essa mudança no campo provocou um êxito rural
muito grande com previsíveis conseqüências negativas entre
outras o aparecimento de um, sem fim, número de favelas
onde milhares de famílias vivem uma vida paupérrima, sem
trabalho e explorados pelos traficantes de drogas.
Conseqüência de tudo isso é a violência e a morte trágica
de muitos jovens. As moradias revelam a situação
sócio-econômica de seus moradores e a região onde eles
vivem. Tem casas que parecem mais um rancho do que uma
moradia e os seus moradores vivem em uma situação de
extrema pobreza e do outro lado tem mansões onde você
encontra de luxo e riqueza tudo o que você pode imaginar.
A classe média que esta quase desaparecendo, seria uma
residência onde se encontra uma situação quase
generalizada nas famílias e casas de Malta.
Há tempo a família brasileira era numerosa
(em número de filhos) como era também em Malta. E a
maioria ajudava no serviço da roça. Mas agora com o êxodo
rural e as famílias morando em ambiente urbano as famílias
numericamente são menores embora as famílias pobres
continuam tendo muitos filhos pelos menos mais do que os
ricos. Por motivo do deslocamento migratório das famílias
de um lugar para o outro em busca de trabalho, eles
abandonam o lugar onde foram criados e viajam longe rumo
aos grandes centros urbanos em busca de melhor situação de
vida. Às vezes o chefe da família leva a família inteira
consigo, outras vezes o pai sai em busca do serviço
deixando a família para traz e acontece que constrói uma
nova família esquecendo a primeira ou deixando-a em
necessidades. Outro problema sério é daqueles que não tem
casa e vivem na rua. São milhares e milhares de famílias
nessa situação nas grandes cidades. Tudo isso leva
facilmente para o caminho da prostituição, das drogas, do
roubo e da violência e outros vícios e males. Outros
trabalham para sobreviver sem poder pagar o aluguel de uma
casa. A igreja faz o que está ao seu alcance para ajudar e
solucionar os problemas. Existem grupos com essa tarefa
específica para ajudas essas pessoas carentes com comida e
medicamentos. Existe uma congregação religiosa cujo
carisma é agrupar essas pessoas para as celebrações de uma
maneira regular. É bonito ver essas pessoas bem humildes
organizar teatro do Natal e da Paixão de Jesus. Realidade
essa que eles vivem no seu dia-a-dia e os torna
verdadeiramente imitadores do sofrimento e da vida pobre
de Cristo.
O sistema político e presidencialista,
tendo também o Congresso Nacional (Senadores e Deputados)
os membros todos são eleitos democraticamente no governo e
na administração tem muita corrupção como em todos os
governos do mundo em alguns países mais do que em outros.
No presente foi escolhido um governo trabalhista, o
Presidente era um operário que fundou a união dos
trabalhadores e também o Partido. Após três tentativas
como candidato foi eleito presidente do Brasil. Está
fazendo uma boa administração, diante daquilo que o Brasil
vinha vivendo, com uma enorme divida com o Fundo Monetário
Internacional. Nesses anos que ele que está no governo a
produção e também a exportação aumentaram de modo especial
a exportação agrícola. A oposição continua insistindo que
a situação não mudou é a mesma embora ele, quando
candidato fez muitas promessas. A situação não muda de um
dia para outro, leva tempo. Outra coisa ainda: ninguém é
perfeito e também no partido dos trabalhadores existe a
corrupção. Como diz o ditado “O tempo nos dirá.” Tem
também o problema do desemprego, embora ultimamente têm
havido algumas mudanças. A indústria aumentou a sua
produção e com conseqüência aumentaram os empregos.
No Brasil tem sindicatos muito fortes e
foram eles que forçaram um pouco as mudanças. Os serviços
sociais existem, mas nem todos podem ser beneficiados. A
Igreja foi sempre na dianteira para defender os pobres e
também na época da repressão militar (1964), quando
sacerdotes e leigos também foram presos e torturados, a
Igreja, sem medo, falava para defender os interesses dos
pobres. A Igreja dá continuidade a sua missão para abrir
os olhos do povo e formar líderes para ajudar formar uma
sociedade onde reúne, mas justiça e menos corrupção.
Enquanto aos recursos materiais que a Igreja tem, está
sendo feita uma conscientização para que aqueles que podem
ajudar dêem a sua contribuição à igreja para que ela possa
dar conta de suas necessidades e possa também ajudar as
paróquias e comunidades mais carentes. No início falei de
uma campanha que se for para ajudar aqueles que mais
necessitam a Igreja no Brasil ainda recebe muitas
contribuições de países da Europa que ainda continuam
ajudando paróquias e movimentos.
Entrevistador
Os maiores passatempos (esporte) e os mais
populares são o futebol e o carnaval. Muitas pessoas
apesar de serem pobres, fazem de tudo para confeccionar
alegorias e fantasias das mais bonitas para os dias de
Carnaval. As festas religiosas são celebradas com
celebrações na Igreja, procissões com o padroeiro e almoço
ou churrasco no salão de festas da Paróquia, esse último
tem a finalidade de arrecadar fundos. No ambiente rural os
proprietários doam animais para o almoço (como se fazia em
Malta há uns 40 anos quando se fazia as quermesses onde se
fazia os bingos e vendia doces e brinquedos).
Padre Carmelo
No Brasil tem muitos grupos ou associações
de: cultura, esporte, passatempos, filantropia, religião
etc., o que mais se destaca é o futebol e o carnaval onde
os brasileiros esquecem por uns breves momentos os
problemas da vida diária. É um povo que adora festas, tudo
é motivo de uma celebração festiva, se alegram e fazes os
outros se alegrarem também. É um país continental e pela
lógica os seus problemas assim como seu potencial também
são continentais. O Brasil tem tudo o que seria necessário
para que todos vivam bem e felizes e que tenham tudo o que
necessitam.
Quando o Padre Carmelo retornara
a Malta?
Muitas vezes já me perguntaram tanto em
Malta como também no Brasil quando eu penso ou tenho a
intenção de voltar para ficar em Malta. Para dizer a
verdade não pensei ainda a respeito disso. Eu me sinto
feliz e também os sacerdotes colegas malteses nós nos
acostumamos aqui no Brasil, tem necessidade de muitos
sacerdotes, nos estamos com saúde, apesar de que a nossa
idade avança.
Enquanto a gente possa continuar
trabalhando para o bem do povo e da Igreja, não penso em
outra coisa.
Foi muito saudável a experiência de que
sacerdotes malteses viessem trabalhar aqui no Brasil? A
resposta é: é, como foi boa. Quando a gente olha para trás
e vê tudo o que cada um fez nesses 40 anos ou mais
enquanto sacerdotes, sentimos que devemos agradecer a Deus
e de modo especial agradecer aqueles que nos ajudaram no
nosso trabalho pastoral. Agradecemos também a Deus que nos
deu a graça de sermos missionários na sua Igreja. Longe da
ilha de Malta aqui no Brasil onde tinha e ainda tem tanto
necessidade de sacerdotes. Sabemos que o número de
sacerdotes e de seminaristas em Malta esta também
diminuindo, mas comparando com a falta de padres no
Brasil, Malta é ainda muito rica de sacerdotes um
sacerdote sozinho numa paróquia de 20.000 ou 30.000 de
almas é uma realidade muito comum no Brasil.
A mensagem que desejo deixar aos jovens é
que sejam mais generosos com o Senhor. O materialismo
penetrou muito nos corações dos jovens como conseqüência
do egoísmo reinante. Muitos jovens procuram somente um bom
emprego onde possam ganhar bastante dinheiro para gozar
bem a vida e se divertirem bastante. Verdadeiramente não
são todos os jovens, assim, porque tem aqueles que nas
férias vão ajudar os pobres em outros países fora de
Malta. Vamos lembrar aquilo que Cristo falou em tem
validade até hoje. “A messe é grande, mas os operários são
poucos, rogai ao dono da messe para enviar operários para
a sua messe”

AD MULTOS ANNOS
Ao Pe. Carmelo Bezzina
Nos parabenizamos pelo trabalho grande que
ele realizou durante os últimos 40 anos no Brasil e lhe
desejamos saúde e muitos anos para poder continuar a sua
missão. Ele é um testemunho vivo de um homem que respondeu
positivamente ao chamado de Cristo e ele doou tudo que é e
que tem de uma maneira total e desinteressada Oxalá que o
seu exemplo seja motivo de inspiração aos outros.

Caros Paroquianos do Saudoso Pe. Carmelo
Bezzina
Faço essa tradução do maltês para o
português com muito carinho e gratidão a Deus.
Pe. Carmelo Bezzina, meu chará, e um
querido amigo que deixou muita saudade no coração de
todos.
Sou maltês, sou padre há 40 anos e conheci
o Pe. Carmelo desde o tempo do seminário.
Que os seus pensamentos sejam para os
leitores uma profunda inspiração, pelo seu testemunho e
dedicação.
Que Deus lhe dê a Coroa da Glória.
Com saudade
Carmelo Mercieca
Paróquia Bom Jesus de Pirapora
Presidente Prudente-SP

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